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THE TALKS

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Jean-Marc Jacot, CEO da alta-relojoaria suíça Parmigiani Fleurier, esteve no Brasil na ocasião da abertura do escritório da “maison” em São Paulo e foi lá que tivemos uma longa e agradável conversa sobre relógios e mercado de luxo.

Ligado à arte que mede o tempo desde seus ancestrais, Jean-Marc traz em seu currículo o testemunho de uma vivencia diária com o mercado de luxo exclusivo.
Junto à Sandoz Family Foundation, M. Jacot difunde a arte da manufatura da relojoaria e o desafio de sua manutenção.

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Visão panorâmica do escritório da Parmigiani Fleurier em São Paulo, que atende clientes somente com hora marcada

Na Parmigiani Fleurier o luxo está intimamente ligado à suas origens quando as criações eram comissionadas aos artesãos e a exclusividade era uma das garantias do produto.

 

Qual sua visão do Brasil como mercado?

Como um mercado-alvo o Brasil é muito importante pelo seu tamanho e número de clientes potenciais para marcas como a Parmigiani. Pessoas com alto poder aquisitivo estão em crescimento no Brasil. Outra razão é que vocês, brasileiros, culturalmente gostam de joias, relógios e bons produtos de luxo.

Existem países potenciais como a Austrália e o Canadá, mas que não têm essa cultura do luxo; os únicos produtos de luxo que eles compram são carros. Mas no Brasil, vocês são muito mais como os europeus e americanos na forma de viver. Por isso vocês são um mercado muito importante.

 

A Parmigiani traz consigo muitos valores de herança mesmo sendo uma casa relativamente jovem. Concorda?

Essa é a composição, a mistura dessa marca. Somos jovens, sim! Mas, não!

‘Sim’ porque criamos a empresa há 15 anos, o que é bastante jovem, mas ‘não’ por causa de nossos competidores. Para a maior parte dos nossos concorrentes, a história que eles alegam ter não é realmente a história verdadeira. O que quero dizer é que muitas marcas de relógios nunca fabricaram um relógio sequer. Este é o único negócio que temos quem alega uma história que nos remete aos séculos XVII ou XVIII, outros produtos de luxo nunca falam sobre isso. Na moda, Christian Dior existe desde 1947, Chanel nunca tinha sido Chanel até 1922. E na empresa automobilística também ninguém alega história. Não sei por que no negócio de relojoaria as pessoas pensam que temos que ser relacionados ao antigo para ser sério.

Somente uma marca nunca parou de fazer relógios e esta é Vacheron Costantin, desde o início.

Nós não somos tão antigos e nem tão jovens. Na Parmigiani temos um departamento de restauração que é absolutamente único. Temos a oportunidade de observar como as pessoas costumavam produzir relógios no passado e somos inspirados pela qualidade do trabalho e do sistema de cada relógio para produzir uma nova peça.

Somos os únicos restauradores oficiais do Museu Patek Philippe, Museu do Kremlin e muitos outros museus oficiais. Nós temos a capacidade de restaurar e observar a história da relojoaria dentro de nosso ofício.

 

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Workshop Parmigiani Fleurier na Suiça

 

Qual o significado da palavra “legado” na filosofia Parmigiani?

Legado é quando você pode observar esse produto maravilhoso que relojoeiros costumavam produzir. Para nós, legado é tentar reproduzir de forma contemporânea relógios tão bons quanto eles eram no passado, porque não podemos esquecer que na história da indústria da relojoaria, tudo ou quase tudo foi criado, e algumas vezes de forma muito mais excepcional do que aquilo que produzimos hoje. Sem mencionar a beleza de ser algumas vezes tão pequeno e algumas vezes tão complicado, tão inovador e é por isso que nos inspiramos pelo mundo dos relógios. Isso é realmente interessante. Nosso objetivo é produzir o que antigos relojoeiros produziam, mas com inovação, tecnologia contemporânea e novos materiais como titânio e carbono, por exemplo.

Não nos interessa fazer nada totalmente automático ou industrializado, precisamos das mãos do homem. Nós produzimos tudo exceto a safira e a pulseira de couro de nossos relógios. O resto? Produzimos tudo!

 

As pulseiras são todas produzidas pela Hermès?

Sim. Todas as nossas pulseiras de couro são feitas à mão pela Hermès, o que também é único. É importante para o consumidor saber que quando nós não estamos produzindo alguma coisa, buscamos dar o melhor. Isso é muito importante.

Somos uma das poucas manufaturas que produzem tudo e é esta uma das razões pela qual produzimos para outras 17 marcas além da Parmigiani. Trabalhamos para marcas como Hermès, Tag Heuer, Patek Philippe e muitas outras.

 

Qual a produção anual da Parmigiani?

No momento produzimos em torno de 5 mil relógios ao ano — o que é um número pequeno. Se quisermos crescer teremos que aumentar o número de empregados, que atualmente é de 600. Isso se justifica porque cada relógio tem acabamento manual.

Essa é uma razão pela qual você nunca verá um produto em cerâmica saído de nossa fábrica, porque cerâmica é feito à maquina. Não se pode tocar com a mão, é a máquina que acaba o produto. Para nós é importante que o homem termine o trabalho, pois isso é luxo. Um relógio ou um produto com acabamento à mão não tem nada a ver com um produto acabado à máquina.

Se você tomar uma pulseira feita à máquina, ela é perfeita. No entanto, uma feita à mão pode não ser tão perfeita, mas tem algo muito mais do que perfeição, que é charme, é uma emoção. E quando se termina de polir um relógio à mão ele não é tão perfeito quanto à máquina, mas é muito mais você, é mais quanté, é muito mais… O sentimento é totalmente diferente. E o inimigo do charme é a perfeição. É como o corpo humano: alguém perfeito não tem charme algum. Qual é o charme se o nariz não é o seu, se seus olhos não são os seus… Esse é o seu charme e isso é a perfeição. E, é por isso que reconhecemos você. Se pudéssemos fazer a perfeição, todos seriam iguais. Por isso que cada um dos relógios Parmigiani é único à sua maneira. Um homem não pode polir um relógio da mesma forma duas vezes. É impossível! Pequenas mudanças fazem o charme. E hoje é difícil explicar isso aos consumidores porque a maioria deles não tem essa educação. Eles gostam de comprar o que é famoso e o que é muito famoso.

 

Como você diferencia luxo e famoso?

Famoso é uma questão de marketing. Luxo é a qualidade de seu produto. Luxo para mim é algo muito importante. Se você quer falar sobre luxo tem que ser raro. Se você produz milhões de coisas, para mim, isso não é luxo, temos que encontrar outra palavra. Luxo tem que ser raro. Se um pintor começar a pintar centenas de quadros hoje, não terá a mesma qualidade de alguém muito raro.

Atualmente se usa a palavra luxo para tudo, um frasco de perfume é luxo, uma garrafa de champanhe é luxo. Onde está o luxo? Mas se você comprar uma garrafa muito rara de champanhe, aí sim é luxo.

 

O luxo está ligado a edições e números limitados?

Luxo para mim tem que ser produzido pelas mãos do homem. Tem que ser limitado porque não se consegue produzir à mão o tanto que se produz à máquina. Então sim, luxo tem que ser limitado não apenas por ser um número limitado, mas por causa da capacidade de produção.

E hoje, qual é o seu luxo? Para alguém que mora nas favelas pode ser um tênis Nike. Mas hoje colocamos a palavra luxo em tudo como uma etiqueta. Por que é luxuoso? Eu não sei! Acho que para pessoas desse tipo e educação, estão procurando mais e mais. Nossa companhia não produz grandes quantidades e nossos clientes sabem exatamente o que estão buscando. Eles querem algo que nem todo mundo tem. Hoje luxo é mais marketing e as pessoas investem mais dinheiro em marketing para criar luxo do que investem em produto. Mas não devemos esquecer, falando historicamente, que há 50, 60 anos aquilo que chamávamos luxo era algo muito raro. Tomemos a indústria automobilística e a companhia inglesa Bentley como exemplo, que após ser comprada pela Volkswagen massificou e agora, temos Bentley em todos os lugares. Não é porque é caro que é luxo.

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Para se fazer um relógio caro é fácil, você pode por vários diamantes grandes e será caro. Mas será luxuoso? Luxo é uma questão de estilo, uma questão de acabamento e quantidade. Todos esses parâmetros falam a língua do luxo.

Tudo em nossa vida é dessa forma. E sempre estamos comprando produtos de companhias que estão produzindo muito.

É como na gastronomia. Se você abre um restaurante que serve milhares de refeições ao dia, isso é um restaurante de luxo? Eu acho que não. Gostamos de ir a restaurantes que servem de 100 a 150 refeições ao dia porque é raro, é complicado de se produzir, é delicado para preparar. Se você tem milhares de pessoas por dia em um restaurante, este não é um restaurante de luxo, é um restaurante bacana, é um restaurante de moda ou qualquer outra coisa, mas não é um restaurante de luxo. As pessoas estão procurando restaurantes raros. Se descobrimos um restaurante maravilhoso e um grande chef, não damos o endereço para todo mundo, damos exclusivamente aos amigos. É como um hotel… Olha o que aconteceu no setor hoteleiro. Trinta anos atrás, luxo era Hilton e Sheraton. O que é luxo hoje? Hotéis butique! As pessoas cada vez mais procuram hotéis sofisticados com 30 a 40 quartos. Esse é o cliente que procuramos.

No mundo dos relógios, somos suíços. E como suíços, somos atrasados. Não somos trendsetters, seguimos as tendências e de fato a indústria relojoaria é sempre tardia quando comparada à outros negócios. E é por isso que estou seguro e convencido que nos próximos dez anos, algumas companhias de relógios tornarão a produzir pequenas quantidades, entre 10 e 20 mil peças ao ano e não 100 mil peças ao ano.

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Para satisfazer esse tipo de clientes que estão procurando por esse tipo de relógios e por esse tipo de marca. Você tem de ser diferente! Por que ser igual ao outro? Para se parecer como todos? O mesmo relógio, o mesmo carro, mesmos sapatos, mesma bolsa… Por quê? Você tem que se parecer como você. Nossos clientes são muito seguros de si e não precisam parecer com outra pessoa.

Em um novo mercado como o Brasil, o novo consumidor vai primeiro às marcas famosas. Isso é normal, como na arte. Inicialmente, se possível, se compra algo muito famoso. Mais adiante, com mais educação, você vai por si mesmo procurar algo diferente, mas nem tão famoso.

…Você começa a se permitir…

É muito importante. Todo mundo tem que se educar como consumidor e isso é um processo muito difícil.

 

Conte-me sobre a parceria com a CBF [Confederação Brasileira de Futebol].

Aparenta acidental, mas não foi. Um amigo da companhia nos telefonou e disse que a CBF queria ter um relógio oficial. Ficamos realmente surpresos porque nossa marca não é habituada a esse tipo de marketing.

É uma edição limitada?

Produziremos algumas centenas ao ano, pouquíssimas. Não produziremos muito, até porque não são muitas pessoas que podem pagar em torno de 25 mil dólares por um relógio. Não assinamos esse contrato para vender muitos relógios. Assinamos para divertir nossos clientes durante a copa do mundo no próximo ano.

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Haverá uma personalidade como porta-voz?

Não, nunca. Nós nunca usamos ninguém nem usaremos. Nosso consumidor não quer parecer com outra pessoa.

Você acredita na associação entre esportes e relógios?

Sim! Hoje todos têm uma atividade ao ar livre. Olhe os jornais de hoje em dia e veja o quão importante são os esportes. O que as pessoas estão lendo nos jornais? Finanças, fofocas, esportes e tempo. E nós somos assim! Cada um no mundo está se apaixonando por futebol, da pessoa mais simples a mais rica. E é por isso que temos que usar o esporte como uma ferramenta para divertir nossos convidados, mas não para fazê-lo parecer-se com um jogador. Essa é uma grande diferença.

Você diria que Parmigiani é um relógio de connoisseur [(em francês, ‘pessoa de bom gosto’, conhecedor)]?

Por ora, sim. É um relógio de conhecedor porque a marca não é muito famosa e sim discreta. E, pretendemos mantê-la assim enquanto pudermos — o que não é muito fácil.

Seu currículo traz uma experiência no ramo dos calçados com Charles Jourdan. Como você compara os dois negócios?

Sapatos são moda e moda é outro tipo de negócio. E isso é também um dos maiores erros de algumas relojoarias que tentam fazer moda. Moda é diferente. Duas vezes ao ano trocamos a coleção, duas vezes ao ano temos que recomeçar. Novos modelos tem que seguir tendências, não se pode aparecer com algo maluco. Relógios, especialmente os de luxo, são produzidos para serem duradouros. A filosofia e a estratégia são completamente diferentes. Moda é muito mais complicada e difícil. Você tem que ser criativo, reacionário e proativo. Na moda tem que se antecipar muito rapidamente porque se você perder a coleção, a temporada passou. Relógios, ao contrário, se você não vendê-lo nesta temporada, venderá no ano seguinte. Não se pode comparar os dois negócios. E quando uma companhia de relógios quer se tornar uma marca de moda… Para mim isso, não é possível.

 

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Trabalhado em ouro, modelo Toric Quaestor Labyrinthe

 

Mas aí atende a outro posicionamento de mercado…

Sim! Tem que ser mais barato e tem que ser algo para um ou dois anos. Por exemplo: Chanel fez um grade sucesso com relógios, mas neste verão as senhoras que vimos com Chanel não estão mais com os seus nos pulsos. E o que elas têm? A maioria delas está vestindo seu Rolex novamente. Você retorna ao básico. O sucesso real na indústria da relojoaria é criar o básico. Esse é o mais difícil, pois é um negócio de longo prazo.

Então o mais difícil seria criar um Passe-Partout, ou seja, um relógio para todas as horas?

Exatamente. Você não pode criar o básico de forma rápida. Rolex tornou-se Rolex porque tem centenas de anos de experiência no mercado e isso não se cria. Você não pode comprar o tempo. Podem-se comprar relógios, mas não tempo, o que é uma grande diferença. E é isso que temos que aprender e ensinar a todos. Mas é um longo caminho, é preciso muita energia e muita consistência. O que Chanel fez na moda, Hermès fez em produtos de couro e Rolex fez com relógios — é difícil.

Por que o Senhor acredita tanto no mercado brasileiro?

Por quê? Porque vocês tem tudo aqui. Vocês têm recursos naturais, muita criatividade, um grande coração. Olhe as lojas e restaurantes que vocês têm aqui, são fantásticos. A única coisa que vocês ainda precisam é de uma política mais estável e quando vocês tiverem isso, serão uma grande potência. Vocês têm boa energia aqui e muitos de jovens. É dinâmico!

Serviço:
Parmigiani Fleurier
Tel: (11) 2592-0009

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Co-fundadora e idealizadora do Blogazine -Saber, conhecer, buscar... conhecimento é sempre algo de bom. Moda na história é o meu interesse ontem, hoje e amanhã. Pesquisar é o chocolate do curioso. Pesquisar comendo chocolate ou tomando sorvete é melhor ainda!