O Fascínio Pelo Sombrio: Da Febre do Dark Romance aos Tropeços de Hollywood

O Fascínio Pelo Sombrio: Da Febre do Dark Romance aos Tropeços de Hollywood

Nos últimos anos, o público tem demonstrado um apetite voraz por histórias que fogem do convencional. Sabe aquele romance água com açúcar, focado no amor puro e transformador? Ele vem perdendo espaço nas estantes e nas telas para narrativas muito mais densas. É aí que entra o chamado Dark Romance. Se você acompanha lançamentos de filmes e séries ou está de olho nos assuntos do momento na internet, é bem provável que já tenha cruzado com o gênero, mesmo sem saber o nome exato. A grande sacada dessa vertente é explorar as áreas mais cinzentas da experiência humana. O romance ainda é o centro de tudo, claro, mas convive com elementos pesados de dor, traumas, perigo real, obsessão e uma moralidade bastante ambígua.

A fina linha entre o amor e o perigo

Ao contrário do romance tradicional, onde o maior conflito costuma envolver distância física, diferenças sociais ou algum mal-entendido que se resolve com facilidade, o Dark Romance joga os personagens no olho do furacão. A tensão é uma presença constante. O gênero confronta o público com dilemas éticos, relacionamentos desequilibrados e segredos obscuros, criando um cenário onde a vulnerabilidade do amor bate de frente com a dureza de obstáculos implacáveis. É uma narrativa que frequentemente levanta a pergunta: até que ponto uma paixão justifica escolhas tão questionáveis?

A construção dos protagonistas também passa longe da obviedade. Esqueça os heróis impecáveis e as mocinhas idealizadas. A aposta aqui é na imperfeição. São indivíduos marcados por traumas profundos, que tomam decisões ruins e apresentam comportamentos que desafiam o tempo todo o julgamento de quem assiste ou lê. É uma dinâmica que transita perigosamente entre atração e repulsa, carinho e violência (física ou psicológica). E, diferentemente dos romances clássicos que garantem o famoso “felizes para sempre”, essas tramas mais densas e com atmosferas quase góticas entregam finais muitas vezes ambíguos. Mesmo quando há redenção, as cicatrizes e as consequências ficam ali, latejando.

De clássicos literários ao fenômeno do TikTok

Engana-se quem pensa que essa atração pelo obscuro surgiu ontem. O gênero bebe direto do Romantismo Sombrio do século XIX. Gigantes da literatura como Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne e Emily Brontë já misturavam romance com tragédia e decadência. Um clássico como “O Morro dos Ventos Uivantes” antecipava perfeitamente o que hoje consumimos sob o rótulo de Dark Romance. No cinema clássico, o mestre Alfred Hitchcock fez sua própria leitura desse estilo em 1940 com “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, unindo paixão, suspense e segredos pesados.

Hoje, no entanto, a força motriz dessa tendência está no ambiente digital. Plataformas como o Wattpad e nichos gigantescos como o BookTok popularizaram livros de autores independentes, atraindo em peso um público de jovens adultos, majoritariamente feminino, na faixa dos 18 aos 30 anos. Essa audiência busca exatamente isso: histórias intensas, que mergulhem em crises de identidade, disputas de poder e emoções sem filtro.

Hollywood e o desafio dos protagonistas moralmente duvidosos

Pegando carona nessa onda de protagonistas com bússolas morais quebradas, a indústria do cinema vive tentando emplacar astros em papéis que misturam charme, crime e relacionamentos perigosos. O problema é que achar o tom exato para fazer o público torcer por alguém que comete atrocidades é uma tarefa ingrata. O caso do ator Glen Powell ilustra bem a dificuldade de equilibrar esses pratos. Dono de um carisma inegável e visual de galã de cinema clássico, Powell vem surfando em uma ótima fase após as continuações de “Top Gun: Maverick” e “Twisters”, além de dominar a comédia romântica no sucesso “Todos Menos Você”.

Sua ambição de sair da zona de conforto é louvável. Ele mandou muito bem atuando e coescrevendo “Assassino por Acaso”, com o diretor Richard Linklater, mas o filme teve foco no streaming. Já em “O Sobrevivente”, superprodução de ação e ficção científica, sua tentativa de encarnar o protagonista machão não convenceu muito. Agora, ele tenta mais uma vez diversificar o currículo com “How to Make a Killing”, do diretor John Patton Ford. Vendido como uma comédia de humor negro e vagamente inspirado no clássico britânico “As Oito Vítimas” (1949), o longa traz Powell como Becket Redfellow. Renegado pelo patriarca de sua família riquíssima — vivido por Ed Harris, que infelizmente só tem uma cena real na tela —, Becket decide assassinar todos os parentes que estão em seu caminho para colocar a mão na herança.

Onde a mistura de gêneros desanda

A premissa tinha tudo para entregar aquela tensão moral que os fãs de histórias sombrias adoram, acompanhada de um flerte amoroso perigoso. O filme exige um malabarismo imenso: fazer a plateia comprar a ideia de um assassino puramente por ele ser o carismático Glen Powell. A ideia até poderia ter engrenado se a equipe tivesse tido coragem de mergulhar na escuridão que a trama pede. Apesar de ser promovido como humor negro, o longa arranca poucas risadas. Nos momentos em que tenta engatar um drama sério, esbarra na superficialidade dos personagens. O fato de Becket ser pobre e matar parentes insuportavelmente ricos não é o suficiente para criar empatia. Powell é charmoso, sem dúvida, mas não ao ponto de sustentar o roteiro sozinho.

A narrativa, estruturada em flashbacks a partir da conversa de Becket com um padre (Adrian Lukis) no corredor da morte, até tem momentos divertidos. Mas a obra nunca fica ácida ou pesada o suficiente para se tornar um bom prazer culposo. Os assassinatos, quase todos por envenenamento, não têm impacto algum. Parecem ter sido suavizados ao máximo para não prejudicar a imagem do protagonista. Os familiares mortos são meros rascunhos em tela, com a brilhante exceção de Topher Grace, que se diverte absurdamente no papel de um pastor de megaigreja exibido, que toca guitarra e ostenta uma foto com El Chapo. De resto, dá vontade de que Alec Guinness pudesse ressuscitar só para interpretar todos os membros da família, como fez no filme original.

Para piorar, a tentativa de inserir um romance sério e obscuro na trama soa totalmente engessada. O roteiro empurra um relacionamento amoroso entre Becket e Ruth, interpretada pela talentosa Jessica Henwick. Ela é viúva de uma de suas vítimas, com a ressalva bastante conveniente de que já iria abandoná-lo de qualquer forma. A dinâmica entre os dois parece apenas cumprir tabela. É a prova clara de que misturar crimes, dilemas éticos e um romance problemático exige muito mais do que intenção. Quando não há intensidade genuína, a história se perde no meio do caminho.