Sabe quando os estúdios resolvem abrir o baú e puxar duas franquias de cantos completamente opostos do universo pop? De um lado, a tentativa de reviver um terror visceral que redefiniu o gênero zumbi no cinema; do outro, a DC tentando repaginar uma heroína que carrega o peso de um dos piores filmes dos anos 80. A gente olha para esses lançamentos e percebe que o passado nunca morre de verdade na indústria — ele só sofre mutações e se adapta, seja pela carnificina ou pelo cinismo.
O Pesadelo Britânico Volta a Respirar
Já faz uma cota. Quase 20 anos desde que vimos a franquia no cinema — 17 anos, se a gente for ser exato e contar nos dedos. Mas, finalmente, no dia 10 de dezembro de 2024, a Sony resolveu soltar o primeiro trailer da tão aguardada sequência Extermínio: A Evolução (28 Years Later, no original), esfregando na nossa cara a situação de uma Grã-Bretanha completamente engolida pelo cenário pós-apocalíptico.
Tem um peso gigante nessa volta. O diretor Danny Boyle e o roteirista Alex Garland se juntaram lá em 2002 e criaram praticamente do zero essa pegada mais urgente de apocalipse zumbi com foco no vírus da raiva, puxados na época por um Cillian Murphy que quase ninguém conhecia. Eles ficaram apenas nos bastidores como produtores na continuação de 2007, mas agora a dupla reassume as rédeas para a terceira parte. E o papo é reto: não é só uma sequenciazinha qualquer para fazer fã sorrir. O filme é o pontapé inicial de uma trilogia novinha em folha. Inclusive, vazou numa entrevista de um dos atores principais que dois desses novos filmes já estão gravados e na lata.
A trama pula quase três décadas desde que aquele vírus maldito escapou de um laboratório de armas biológicas. Pelo que o trailer entrega, o grupo de sobreviventes está ilhado. Literalmente. Eles vivem num pedaço de terra abraçado por medidas extremas de segurança, conectado ao resto do continente por uma única ponte. É um esquema de regressão total: a galera aparece empunhando arco e flecha, pastoreando gado e se enfiando de volta em papéis bem tradicionais de sociedade. Mas o bicho pega quando alguns membros desse grupo decidem cruzar a ponte pra uma missão no continente. Lá fora, eles trombam com segredos que transformaram não só a biologia dos infectados, mas a própria natureza dos outros sobreviventes.
Tudo isso ganha um clima ainda mais sufocante com a trilha. Ao som de uma gravação antiga do ex-astro do cinema mudo Taylor Holmes recitando o poema de guerra “Boots”, de Rudyard Kipling, o trailer mostra uma unidade militar tateando no escuro com pura cautela. É uma cena de arrepiar a espinha.
Sangue Novo no Elenco (Mas e o Cillian?)
O peso de carregar essa nova fase caiu no colo de uma galera inédita na franquia. O trailer já mostra gente de peso como Aaron Taylor-Johnson, Jodie Comer e Ralph Fiennes caindo na porrada contra os zumbis num clima de tensão absurda. Erin Kellyman e Jack O’Connell também estão no bolo dos novos rostos.
Mas claro que a principal teoria nos fóruns é sempre a mesma: cadê o Cillian Murphy? Ele foi a grande estrela apenas do primeiro filme em 2002 e simplesmente não deu as caras no lançamento de 2007. A Sony parece ter preparado o terreno para os fãs. Tom Rothman, presidente da Sony Motion Pictures, já soltou num comentário rápido que o ator supostamente vai ter um papel surpreendente nessa nova trama. Resta saber como eles vão encaixar isso.
Do Apocalipse à Antipatia Kryptoniana
Se a Sony está cavando a tensão crua para justificar seus retornos, a DC foi por um caminho bem mais debochado nas suas revitalizações recentes. Pegue a nova investida de Supergirl, por exemplo. O filme traz Milly Alcock assumindo a capa da prima antissocial do Superman. O problema é que a narrativa acabou caindo num enredo frouxo e meio sem sal, entupido até o talo de gracinhas e atitudes irônicas que raramente aterrissam como deveriam.
Eles fazem questão de marcar as diferenças entre ela e o primo famoso da forma mais ácida possível. A própria Kara Zor-El, como a jovem heroína é chamada, larga logo um: “Ele é um puta nerdão”. E não para por aí na marra, mandando em seguida um amargo “Ele vê o lado bom das pessoas. Eu vejo a verdade”. Isso dita a vibe desiludida que tentaram empurrar para o projeto inteiro, criando uma protagonista totalmente desconectada do otimismo clássico da DC.
Para ser justo, o histórico também não ajudava. Kara apareceu nos quadrinhos lá em 1959, mas só foi ganhar as telas de cinema em 1984 num projeto bizarro estrelado por Helen Slater, com Faye Dunaway bancando a supervilã. O negócio rendeu até um crédito inesquecível de “Peter O’Toole como Zaltar”. Aquele filme original da Supergirl foi ruim em proporções intergalácticas. Por conta disso, nunca existiu de fato um legado de altas expectativas em torno de um novo filme com esse título. Convenhamos, desde que o Stuart Little tentou experimentar mocassins, ninguém teve sapatos tão pequenos assim para preencher. É um sarrafo que já estava no chão, e mesmo assim a nova tentativa pena para encontrar sua própria voz no meio de tanta ironia, provando que às vezes, lidar com os mortos-vivos do cinema britânico pode ser mais fácil do que salvar um roteiro de super-herói que perdeu a própria identidade.