Em 2012, a Disney comprou a franquia Star Wars das mãos do seu criador, George Lucas. Para muitos, essa decisão virou um dos maiores arrependimentos de Lucas em relação à saga, mas a real é que a empresa do rato já tinha a galáxia muito, muito distante na cabeça décadas antes dessa aquisição. Lançado em 1979, “O Buraco Negro” (The Black Hole) marcou a história como o primeiro filme live-action da companhia a receber a classificação PG — para se ter uma ideia, a primeira animação com essa mesma classificação, “O Caldeirão Mágico”, só daria as caras em 1985.
A trama acompanha a tripulação da nave USS Palomino e suas desventuras em torno de uma embarcação perdida, presa num campo gravitacional anômalo ao redor do buraco negro que dá nome ao filme. A obra é lembrada até hoje pelos seus robôs: o pequeno e valente V.I.N.CENT e o intimidador Maximilian (que não deve ser confundido com Maximilian Schell, um dos astros do elenco). Mas os bastidores desse projeto são, no mínimo, uma epopeia à parte.
O desenvolvimento começou em 1974. A ideia original do estúdio era fazer um filme de desastre chamado “Space Station One” — algo na pegada de “Inferno na Torre”, só que no espaço. O projeto ficou engavetado por anos e ninguém sabia muito bem o que fazer com ele, até que Star Wars atropelou a cultura pop. O genro de Walt Disney, Ron Miller, logo percebeu o potencial e reformulou toda a narrativa para surfar na onda do sucesso de bilheteria de George Lucas. O problema é que o roteiro nem estava pronto antes das gravações começarem, o que levou a equipe a improvisar uma estética bem “2001: Uma Odisseia no Espaço”, abusando de visuais viajados que flertavam com interpretações sobre o céu, o inferno e tudo o que há no meio.
O preço de clonar um fenômeno
Obviamente, tentar imitar um sucesso não é garantia de nada. O diretor Gary Nelson até admitiu em entrevistas recentes que, quando foi abordado pela primeira vez para assumir o projeto (que na época tinha o título provisório de “Space Probe One”), ele recusou logo de cara por achar a premissa bem fraca. A Disney precisou insistir bastante e colocar na mesa algumas artes conceituais absurdas das naves espaciais para finalmente convencê-lo.
Quando Nelson assumiu a bronca, começou cortando personagens inúteis e enxugando a trama. A Disney abriu a carteira e o orçamento de “O Buraco Negro” acabou sendo o dobro do que custou “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança”. O clima no set era ótimo, mas a magia parou por aí. O filme foi um verdadeiro fiasco de bilheteria, faturando apenas uma fração do que a saga de Lucas conseguiu e arrecadando menos até do que “Star Trek: O Filme” — que a maioria dos fãs concorda ser um dos pontos mais baixos da franquia concorrente.
A crítica não perdoou. Roger Ebert achou a narrativa maçante e afogada em melodrama. Hoje, é verdade que o público olha para o filme com um pouco mais de carinho, elogiando sua atmosfera pesada e o robô Maximilian como um antagonista genuinamente assustador. O vilão de lata inclusive protagoniza uma cena de morte bem gráfica, que não deixa quase nada para a imaginação sem quebrar a classificação indicativa — uma jogada ousada para a Disney da época. Não dá para chamar de obra-prima injustiçada, mas é o retrato perfeito da primeira tentativa de clonar a fórmula de Star Wars, com todos os seus trancos e barrancos. Para os curiosos, o longa está lá no catálogo do Disney+ para quem quiser tirar a prova.
Um novo salto no hiperespaço dos games
Se nos anos 70 o impacto da saga espacial ditava os rumos do cinema, hoje, no verão de 2026, a influência de Star Wars continua a me surpreender — só que agora, quebrando paradigmas no meu próprio console. Quem acompanha meus textos sabe que eu nunca fui chegado em jogos de corrida. Não que sejam ruins, simplesmente nunca bateram com o meu ritmo. Por isso, a ironia de eu ter saído das cabines do Summer Game Fest completamente viciado em um título do gênero não passa despercebida. Star Wars: Galactic Racer me fisgou de um jeito que eu não conseguia soltar o controle.
Deixando de lado o clássico caminho do herói Jedi ou as batalhas colossais entre impérios e rebeldes, o jogo foca exclusivamente nas corridas de pods. Nós escolhemos entre diferentes categorias de veículos para rasgar os cenários de planetas icônicos que aprendemos a amar. A velocidade do jogo é insana e revigorante. Cada pod tem um peso diferente, com vantagens e habilidades próprias que exigem respostas em frações de segundo para que você não coma poeira. A jogabilidade é tão redondinha que, mesmo em velocidades absurdas, consertar uma derrapagem para evitar um choque fatal parece natural. As pistas são largas na medida certa para você meter uns drifts enormes nas curvas, e o gerenciamento do boost funciona de forma muito fluida.
E visualmente, o jogo é um espetáculo. Passar costurando pelos destroços gigantescos dos Star Destroyers em Jakku me deixou de queixo caído. Cada nível dentro dos planetas traz uma identidade visual própria que eu sinceramente não esperava ver. Para completar, as câmeras cinematográficas que entram em ação quando os adversários batem e destroem seus pods me deram uma nostalgia fortíssima de Burnout.
A estrutura que muda o jogo
O que realmente consolidou meu hype, porém, foram os modos de jogo. A campanha principal tem uma estrutura de roguelike sensacional: avançamos por uma árvore de eventos espalhada por quatro planetas, cumprindo desafios para juntar créditos, pontos de upgrade e peças novas. Você ajusta o pod do seu jeito — melhorando a curva, otimizando o resfriamento do boost, entre outros. O uso contínuo dos pods também melhora seus atributos de forma permanente.
A historinha da campanha também engrena bem. O jogador assume a pele de um piloto essencialmente aposentado que é arrastado de volta às pistas para desbancar um novato arrogante que está tentando monopolizar a liga. Tem uma qualidade narrativa e um ar cinematográfico que dão um baita respiro para o gênero de corrida.
E se isso não fosse o bastante, há modos alternativos que pesam a mão na nostalgia. Em uma partida especial que recria eventos dos filmes, pude jogar com o Sebulba rasgando as areias de Tatooine. Foi impossível não me transportar direto para o dia em que assisti ao Episódio I com o meu pai, vendo o alienígena ranzinza surgir como o grande rival do jovem Anakin.
No fim das contas, a mecânica meio Burnout misturada com a progressão roguelike apagou totalmente aquele frio na barriga de frustração que eu costumo ter com jogos de corrida. Galactic Racer é uma das poucas experiências do gênero que eu genuinamente amei, e já carimbou seu lugar como compra garantida no meu primeiro dia de lançamento. A real é que, seja reescrevendo a história da Disney nos anos 70 ou me fazendo amar um gênero que eu passei a vida evitando em pleno 2026, o peso e a mágica de Star Wars continuam absurdos.