O cinema de terror sobrevive de ciclos e da coragem de quem decide subverter as regras do jogo. Foi exatamente essa ousadia que redefiniu o subgênero dos zumbis no início dos anos 2000, e é a mesma energia crua que promete revolucionar o mito do lobisomem em breve. Se você procura por um horror que incomoda, focado na brutalidade e na desconstrução de monstros clássicos, o cenário atual guarda um retorno muito aguardado e uma nova aposta de peso.
Muita gente jura de pé junto que a primeira vez que vimos zumbis correndo como maratonistas enfurecidos foi no remake de Madrugada dos Mortos, assinado por Zack Snyder lá em 2004. A realidade, porém, é que a mudança de paradigma aconteceu antes. Em 2002, Danny Boyle chutou a porta com Extermínio (28 Days Later), mudando para sempre a forma como os mortos-vivos são retratados na cultura pop. A trama joga o espectador num cenário puramente desolador: ativistas invadem um laboratório e libertam cobaias, descobrindo da pior forma que os animais estavam infectados com um “vírus da raiva” brutal. A contaminação varre a humanidade rapidamente. Quando o protagonista Jim (Cillian Murphy) acorda de um coma em um hospital abandonado, dá de cara com uma Londres fantasmagórica e violenta. Ao lado de sobreviventes como Selena (Naomie Harris) e Hannah (Megan Burns), ele precisa navegar por um mundo que simplesmente deixou de existir.
Para o segundo capítulo da franquia, lançado em 2007, Boyle passou a bola para o diretor espanhol Juan Carlos Fresnadillo. Extermínio 2 (28 Weeks Later) salta seis meses na linha do tempo e foca em personagens inéditos. O exército americano tenta instaurar a ordem e repovoar Londres, mas o inferno volta à tona quando um portador reintroduz o vírus acidentalmente. Dessa vez, a lente acompanha os irmãos Tammy (Imogen Poots) e Andy (Mackintosh Muggleton), que talvez carreguem a chave para a cura no próprio DNA, sob a proteção do oficial das forças especiais Doyle (Jeremy Renner).
Se você quer fazer um aquecimento e relembrar como essa franquia visceral começou, o primeiro Extermínio está disponível no catálogo do Prime Video. E a maratona faz todo o sentido agora: duas décadas depois, Boyle volta à cadeira de direção para comandar Extermínio: A Evolução. O longa tem previsão para chegar aos cinemas em junho de 2025, dando o pontapé inicial no que promete ser uma nova trilogia massiva.
Do apocalipse viral às trevas folclóricas
Enquanto a franquia de Boyle nos lembra do pavor de uma sociedade ruindo sob uma infecção incontrolável, outros cineastas buscam o horror nas raízes mais primitivas da nossa história. Seguindo essa mesmíssima cartilha de reinventar criaturas clássicas através de lentes implacáveis, a Focus Features acaba de revelar o aterrorizante primeiro trailer de Werwulf, o novo épico de época do aclamado Robert Eggers (A Bruxa, O Farol).
Esqueça as convenções mastigadas de filmes de lobisomem. Ambientado por volta de 1300, numa Inglaterra rural isolada e engolida pela névoa, Werwulf aposta num body horror punitivo e historicamente fundamentado. A narrativa persegue um fazendeiro amaldiçoado, interpretado por Aaron Taylor-Johnson, que tenta sufocar uma aflição profana dentro do próprio corpo enquanto busca algum traço de salvação no amor de sua esposa, vivida por Lily-Rose Depp. Numa escolha criativa que dialoga direto com a estrutura rígida de fábulas antigas, Eggers limou os nomes próprios do roteiro. O protagonista de Taylor-Johnson é creditado simplesmente como “O Homem”.
O material divulgado transpira tensão. A estética suja se funde com cerimônias ritualísticas claustrofóbicas em cavernas, jogando com a expectativa do público ao esconder propositalmente a transformação completa do monstro. Os bastidores parecem uma grande reunião do círculo de confiança do diretor: Taylor-Johnson, Depp e Willem Dafoe (que entra em cena como um caçador de feras implacável) emendaram Werwulf logo após encabeçarem o elenco do estrondoso Nosferatu de 2024. O caos medieval ainda conta com Ralph Ineson, marcando mais um retorno ao universo de Eggers desde A Bruxa. Na parte técnica, a parceria se repete com o autor islandês Sjón no roteiro — repetindo a dobradinha de O Homem do Norte — e Jarin Blaschke na direção de fotografia, entregando um peso visual inspirado na era do cinema mudo, somado a um design de som prático de revirar o estômago.
A estratégia da Focus Features é clara: transformar a temporada de inverno gringa na rampa de lançamento oficial de Eggers. Posicionando o filme nessa janela, o estúdio tenta replicar a bilheteria massiva de Nosferatu, que arrebatou quase 182 milhões de dólares globalmente contra um orçamento de 50 milhões após sua estreia no Natal de 2024. Descrito pelo próprio diretor como “de longe a coisa mais sombria que já escrevi”, o projeto não parece pedir licença para incomodar, despontando como uma experiência cinematográfica densa e sem concessões para quem tem estômago forte.